domingo, 8 de fevereiro de 2009

O DIABO EXISTE?


As respostas bíblicas para esta pergunta são ambíguas e vagas. Isto porque alguns defendem que a Bíblia não deve ser lida literalmente, o que dá margem a inúmeras interpretações. Mas geralmente os cristãos acreditam piamente na existência de uma entidade que encerra em si a essência da maldade. Sem perguntar como é possível que um ser criado santo e puro pudesse se tornar algo completamente perverso e egoísta, saem por aí proclamando causas externas a coisas que são da responsabilidade dos humanos.

Comecemos nossa análise pela Bíblia. É fato que o nome de Satã - e seus supostos pseudônimos - são mencionados na Bíblia. A maioria das pessoas esclarecidas atribui isso a uma espécie de mal interior, o que me parece bem mais coerente. Outros dizem arbitrariamente que se trata de um ser real, existente em si mesmo e independente de nós. É interessante notar que as menções ao Diabo, Satanás, Demônio, são abundantes no Novo Testamento, mas não no Antigo. O tal anjo caído é citado claramente primeiro no livro de Jó. Além deste livro, aparece também no livro de Crônicas e no livro de Zacarias. Uma vaga aparição é aquela da serpente do livro de Gênesis e outra no livro de Isaías. Existem referências a Satã em alguns textos apócrifos Hebreus, como no livro dos Jubileus (entre 135 a.C a 105 a.C) e no Testamento dos Doze patriarcas (entre 109 a.C e 106 a.C) e na literatura apocalíptica judaica.

Os cristãos se atiram numa batalha ferrenha contra Satã, mas não os antigos hebreus. A luta dos antigos hebreus inicialmente era contra os ídolos, não contra os demônios. E para os hebreus os ídolos eram apenas estátuas e a adoração a eles era proibida simplesmente porque desagradava a Deus. Ao que parece os hebreus não tinham uma noção de mal absoluto antes da era de Jó. E por que será? Perguntaria um espírito crítico. No tempo de Jó os hebreus estavam cativos na Babilônia e provavelmente tiveram contato com outras culturas, como a persa, absorvendo da idéia de Ahriman, o “mal intencionado”, o deus do mal de Zaratustra, como sendo o culpado do mal que eles estavam sofrendo. Mas diferentemente do que é para os cristãos, o Deus dos hebreus não era um deus todo bondoso. Ele era a causa de todas as coisas, tanto boas como ruins. Em Isaías está escrito: “eu crio a luze a escuridão. E faço tanto o bem como o mal. Eu, o Senhor, faço todas estas coisas” ( Is; 45.7). Assim, para os hebreus, o demônio era como um empregado de Deus. Além do mais, a palavra Satanás não é um substantivo próprio. Para os hebreus que viveram pouco antes da Era Cristã, o tal adversário era uma espécie de promotor com a função de acusar os réus no dia do julgamento ou testar a fé dos humanos. Mas aqui ele não tem liberdade pra fazer o que bem quer, ele só faz o que Deus ordena. Também o é o vocábulo grego “Diabolos”, donde surge “Diabo” que é a maneira da qual Satã é chamado no Novo Testamento. Esta palavra significa “acusador”, ou seja, promotor. Existem partes muito interessantes na Bíblia que provam isto e que geralmente é negligenciada pelos crentes. Existem claras referências a um “espírito mal da parte de Deus” (Jz 9.25, 1Sm 16.14, 18.10 e 19.9). Qual é o deus bondoso que mandaria espíritos malignos atormentar seus filhos?

No caso da serpente do Gênesis, é provável que Moisés, o suposto autor do Pentateuco, sequer conhecesse a lenda de Satã. Muito menos Abraão, o patriarca do povo judeu. Se Satanás é mesmo um ser real, porque Deus esconderia esta verdade dos seus servos mais amados? É curioso que o relato da queda dos anjos deveria ser dito no primeiro livro, mas somente no Apocalipse de São João, o último livro da Bíblia é que se conta, supostamente, a queda dos anjos. E é somente neste livro que se diz que a serpente do Gênesis é o mesmo Satã. Inspirações divinas à parte, porque parece que somente as pessoas do tempo do apóstolo João sabiam de tal coisa? É provável que o relato do Gênesis seja simplesmente uma fábula, já que serpente em hebraico diz-se "nahash", que é sinônimo de "astúcia". Assim sendo, pode ser que o que Moisés queria dizer é que a astúcia dentro do homem é quem disse para eles desobedecerem a Deus. Tudo não passa de uma sábia alegoria. Os antigos judeus não acreditavam em um mal em pessoa.

E quanto ao Novo Testamento? Os apóstolos de Jesus dão muita ênfase ao Diabo, até mais que a Deus. No tempo de Jesus existiam muitos dos já citados textos apocalípticos. Nestes textos dava-se muita importância aos demônios, mas eram apenas histórias populares e literárias. No tempo de Jesus a elite judaica assimilou muitas das crenças populares presentes nos textos apocalípticos e incorporaram à religião, mas logo abandonou estas crenças, povo novamente Satã como um ser abstrato, a despeito do cristianismo, que continuou batendo nessa mesma tecla por milênios. Mas ao que parece, para os cristãos primitivos o Diabo também era um ser abstrato, inclusive no apocalipse de São João e na passagem da tentação de Cristo. Para Paulo de Tarso, não deveríamos confiar em anjo algum, sendo que o Cristo já tinha vindo para ser o mediador entre os homens e Deus, ou seja, os anjos eram totalmente inúteis. Talvez ele conhecesse a lenda de Satã, mas não lhe dava muita importância e nem fazia distinções entre anjos bons e maus. Somente depois que os apóstolos morreram é que os cristãos demonizaram os deuses pagãos Asmodeu, Astaroth, Baal, Baal-Berith, Dagon, Moloch entre outros, que para os hebreus eram apenas estátuas. Até o deus Poseidon dos gregos foi demonizado e seu tridente, um mero instrumento de pesca, se tornou um símbolo do Mal e os deuses pagãos foram mostrados como demônios ou o próprio Satã tentando usurpar para si os louvores que eram de Deus "por direito".

Para alguém que se baseia na razão para explicar a realidade fica claro que a idéia de demônios foi absorvida pelo contato com outras culturas. Em nenhum momento, além do livro de Jó, fala-se claramente de um "mal em pessoa" e só uma menção ao Diabo em toda a Bíblia não é bastante para validar sua existência. Vale lembrar que, segundo algumas especulações, o livro de Jó nem foi escrito por um hebreu, mas por um árabe. "Em nenhum momento não!", diria um crente. "E o Apocalipse?". O trunfo dos cristãos é o texto escrito por São João onde se fala muito sobre um tal "dragão", duas bestas e um Anti-Cristo, que são identificados como sendo o próprio Belzebu. Conta também um relato sobre umas estrelas que foram jogadas na terra, que os cristãos dizem ser uma evidência da batalha no céu. Neste texto Satã é desmascarado, suas origens e ambições são mostradas e ele é identificado com a antiga serpente do Gênesis. E agora? Como duvidar da existência de Satã diante de "provas" tão convincentes? Será mesmo? É interessante que o trunfo dos cristãos se torne meu golpe de misericórdia no Diabo como é compreendido hoje.
O que nos diz o Apocalipse?

“E viu-se um sinal no céu: uma mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos pés e uma coroa de doze estrelas sobre a cabeça. E estava grávida e com dores de parto e gritava com ânsia de dar à luz.
E viu-se outro sinal no céu, e eis que era um grande dragão vermelho, que tinha sete cabeças e dez chifres e, sobre as cabeças, sete diademas.
E sua calda levou após si a terça parte das estrelas do céu e lançou-as sobre a terra; e o dragão parou diante da mulher que havia de dar à luz, para que, dando ela à luz, lhe devorasse o filho.
E deu a luz um filho, um varão que há de reger todas as nações com vara de ferro; e o seu filho foi arrebatado para Deus e para o seu trono.
E a mulher fugiu para o deserto, onde já tinha lugar preparado por Deus para que ali fosse alimentada durante mil duzentos e sessenta dias.
E houve batalha no céu: Miguel e os seus anjos batalhavam contra o dragão; e o dragão batalhava com seus anjos, mas não prevaleceram; nem mais o seu lugar se achou no céu” (Apocalipse 12.1-8).

Este trecho causa arrepio nos cristãos e torna-se a prova definitiva da existência de Satã e da queda dos anjos, porém eu nunca vi uma interpretação mais irrisória em toda minha vida sobre um texto tão profundo como este. Convém lembrar aos esquecidos que o Apocalipse é um texto esotérico, não no sentido atual, que geralmente remete a feitiçaria e misticismo, mas no sentido que era para os gregos. Esotérico vem de uma palavra quase homônima do grego, que quer dizer "ensinamento reservado aos discípulos de uma escola, que não podia ser comunicado a estranhos"(ABBAGNANO). Era, portanto, dirigido aos cristãos e, por isso, comunicado numa linguagem que os romanos não entendessem. Tentar interpretá-lo de maneira tão simplória é no mínimo uma sandice.

Joguemos luz, então, sobre o que diz realmente o Apocalipse. É preciso ensinar estes cristãos a ler, para que não saiam por aí dizendo coisas que não foram ditas na Bíblia, "pondo palavras na boca de Deus". Note que o texto fala de um "varão", que "há de reger todas as nações com vara de ferro". Quem seria este varão senão o próprio Jesus? Bem, isso nem eu o nego. Note também que há um "dragão", que os crentes insistem em dizer que é Satã, o mal encarnado. O texto fala que o dragão persegue uma mulher para impedir o varão de nascer e depois houve uma batalha no céu. Alguém notou algo estranho? A tal batalha aconteceu depois que Jesus nasceu e depois até que ele morreu ("o seu filho foi arrebatado para Deus"). Se antes de Jesus nascer e morrer Satã ainda não tinha sido expulso do paraíso, quem foi o anjo caído que tentou Adão e Eva? Como Satã pôde ter feito isso se a ainda não era um anjo rebelde e ainda não tinha lutado contra Deus e seus anjos?

O texto parece contraditório, mas não o é. Está em contradição apenas com o que foi nos ensinado, com coisas que não foram ditas na Bíblia. Foi-nos ensinado que Satã foi expulso do céu antes da criação do mundo, mas em lugar algum da Bíblia diz isso, mas diz o contrário, que foi bem depois. Foi-nos ensinado que o Diabo flagela pessoas no inferno, mas na seqüência o texto diz que o dragão foi lançado na terra (Ap 12.9). Foi-nos ensinado que Satã é um ser real, mas este texto não diz isso.

O que nos diz o apóstolo São João? Primeiramente o apóstolo nos fala em "céu" e "terra". Mas o céu e a terra são o mesmo lugar, pois se referem a estados de espírito. Céu é um lugar de pureza, de beatitude, excelência, onde vivem aqueles que obedecem aos mandamentos de Deus. Distantes da terra, que é um lugar de pecado, egoísmo, perdição, mundo sensível da matéria, enfim, é o que chamamos de "mundano". Mas a Bíblia afirma que ninguém está isento do pecado, por conta da desobediência dos nossos primeiros ancestrais, nem mesmo os santos. O Dragão é o símbolo do pecado, mas não um ser que existe independente de nós. Ele estava tanto no "céu" como na "terra", e por estar mesmo entre os mais santos conseguiu arrastá-los para o mundo do pecado ("sua calda arrastou após si a terça parte das estrelas do céu -os santos-e lançou-as sobre a terra"). Note que as estrelas a que João se refere não são anjos, caso contrário o apóstolo iria entrar em contradição ao dizer que os anjos foram expulsos, depois da batalha, para a terra, pois, afinal, como os anjos poderiam ser jogados na terra se eles já estavam na terra antes da batalha?

Depois o livro diz que "Miguel e seus anjos batalhavam contra o Dragão". Miguel, ou Mikael para os íntimos, significa "o que é igual a Deus" em hebraico. E quem seria igual a Deus senão o próprio Jesus, o Cristo? Provavelmente os Testemunhas de Jeová estavam certo ao afirmarem que Miguel é o próprio filho de Deus. Depois de vencer o Dragão, Jesus, ou melhor, Miguel o expulsou do céu. Isto quer dizer que aquele que aceitasse Jesus como seu salvador agora estava em um céu onde não existia pecado, sendo que o Dragão foi expulso do coração dos santos e hoje vive somente na terra, entre os pecadores mundanos. Ao morrer Jesus venceu o pecado, na forma do Dragão, juntamente com seus seguidores (anjos): "eles o venceram pelo sangue do cordeiro", ou seja, Jesus já estava morto quando venceu o Dragão.

Existe ainda o enigma da mulher. Quem disse que se tratava de Maria deve estar um pouco arraigado nos credos católicos. A mulher tinha uma "coroa de doze estrelas", o que simboliza as doze tribos de Israel. Jesus, o dito Messias, veio do seio do povo Judeu, simbolizado pela mulher. Depois de expulso o Dragão perseguiu a mulher (Ap 12.13). Não conseguindo pegá-la perseguiu os filhos dela (Ap 12.17), ou seja, os cristãos.

O Apocalipse nos de Satã e que ele foi expulso pelo "sangue do cordeiro". Não há nenhum anjo rebelde aqui, é apenas o pecado no homem. Ele já existia antes de Jesus vir ao mundo e é a "antiga serpente, o diabo e Satanás". Era o egoísmo recôndito no coração do homem, que somente muito tempo depois é que foi expulso do convívio daqueles que guardam os mandamentos de Deus.

E quanto à tentação do deserto? Não foi Jesus, o Cristo tentado por um Mal real? Provavelmente se tratava de um mal interno como os outros demonstrados aqui. "Mas como?"- Perguntaria um crente-"se Jesus, o filho de Deus não tinha nenhum mal interior para que pudesse tentá-lo? Somente um mal exterior poderia fazer isto." Não é bem assim. A Bíblia às vezes mostra-se contraditória e surpreendente. Veja o que diz Lucas 18; 18,19:

"E perguntou-lhe um certo príncipe, dizendo: Bom Mestre, que hei de fazer para herdar a vida eterna? Jesus lhe disse: Por que me chamas bom? Ninguém há bom, senão um, que é Deus."

Aqui Jesus confessa claramente que ele também tem maldade dentro de si. Sendo assim, pode ser que fosse mesmo o mal interior de Jesus que o tentava no deserto. Sem contar que esta passagem é um plágio descarado da tentação de Buda. Conta a lenda que, sentado sob a árvore Bo, Gautama Sakyamuni, o Buda, estava prestes a atingir o Nirvana quando foi tentado pelo deus Kama-Mara (Desejo, ou Amor e Morte), para que se desligasse de sua busca. Muitos identificam este deus com um demônio. Também Jesus foi chamado ao deserto como uma forma de peregrinação espiritual. Não me parece que exista apenas coincidência nestas duas histórias.


Outra parte que é citada pelos cristãos é no livro de Isaías. No capítulo 14, versículo 12 ao 15 diz:

12. Como caíste do céu, ó estrela da manhã, filha alva do dia? Como foste cortada por terra, tu que debilitavas as nações?
13. E tu trazias no teu coração: eu subirei ao céu, por cima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono, e no monte da congregação me assentarei, na banda dos lados do norte.
14. Subirei sobre as alturas das nuvens, e serei semelhante ao Altíssimo.
15. E contudo derribados serás no inferno, ao mais profundo do abismo.

Eis o trecho que suscitou incontáveis disparates. Aqui são mostrados os motivos que levaram Satã a se rebelar contra Deus: a vontade de receber seus louvores e ser maior que o Altíssimo. Santo Agostinho traçou o desenho do Satã ocidental baseado nesse trecho. Milton, no seu “Paraíso Perdido” trata-o com mais detalhes. Ambos foram cruciais para formar o retrato do Mal encarnado. Mas o que existe aqui não é apenas um erro de tradução, mas de interpretação. O trecho em questão fala de Nabucodonosor, rei da Babilônia, como ele mesmo diz no versículo 4: “então, proferirás este dito contra o rei da Babilônia e dirás:...” Infelizmente essa parte é negligenciada, intencionalmente ou não, pelos que defendem o capítulo 14 de Isaías como uma revelação sobre Satã. A parte que diz “estrela da manhã” é uma metáfora com o planeta Vênus, como era conhecido por ser a última estrela – como os antigos pensavam que era – a desaparecer quando nasce o dia. Os romanos chamavam o planeta Vênus de Lúcifer (lux fero) e na tradução para o latim preferiram colocar o nome do planeta/estrela, ficando “Como caíste do céu, ó Lúcifer”. Por conta da proliferação da lenda de Satã, este trecho foi visto como uma revelação sobre os anjos caídos e sobre o nome real de Satã: Lúcifer. Talvez o fato de quase toda a população européia durante a Idade Média ter sido analfabeta tenha contribuído para a cristalização de tamanha falta de bom senso, e a dificuldade das pessoas do nosso tempo em interpretar textos tenha feito o mito perpetuar.

Também essa história de rebelião não tem nenhuma novidade. É comum nas religiões antigas essas lendas que relatam inimigos que tentam usurpar o trono dos deuses. No masdeísmo, Ahura Mazda e seus imortais sagrados, uma espécie de anjos, viva em eterno conflito com seu antípoda, Ariman e sua horda de demônios. Na Índia havia a disputa dos Assurs, espíritos do mal que queriam tomar o lugar dos Devas. Na mitologia nórdica quem ameaçava os deuses eram os gigantes e na grega, os deuses viviam ameaçados pelos poderosos titãs, forças do caos e da destruição. Assim sendo, o cristianismo apenas adaptou mitos amplamente conhecidos para explicar a natureza do mal.


Na Idade Média esta idéia distorcida a respeito do mal se proliferou. Pintado nos vitrais das igrejas e na imaginação do povo Satã se cristalizou. Inspirações divinas à parte, é interessante perguntar por que os primeiros hebreus não conheciam um perigo desta dimensão? Por que Deus só o avisou a nós, sortudos cristãos? É evidente que o Diabo é apenas uma criação dos hebreus por contato como outras culturas. Depois de tanto ser temido ganhou vida, corpo, chifres e as feições do inofensivo deus grego Pã. A palavra Diabo vem do grego "diabolos", que quer dizer "caluniador”, “acusador”. A palavra demônio também vem de uma palavra grega, "daimóm", que quer dizer simplesmente "espírito". Até onde sei - corrijan-me se eu estiver errado - sequer existe uma palavra hebráica para designar uma generalidade de entidades maléficas, vulgarmente "demônios", ou seja, eles não existiam para os hebreus. Existe sim a palavra hebraica Shatan, donde deriva o nome Satanás, que significa "obstáculo", "opositor", "contraventor", ou simplesmente "inimigo" mesmo. Mas além de não servir para outros seres, esta palavra quase não aparece no Antigo Testamento.

Partiremos agora para o lado mais filosófico da coisa. Os epicuristas perguntavam aos estóicos o seguinte dilema: “Por que Deus não destrói o Mal? Deus não destrói o mal ou porque ele não pode, ou porque não quer. Se ele quer, mas não pode então é impotente, e isto um deus não pode ser; se pode, mas não quer é cruel, e isto também um deus não pode ser; se não pode e não quer então é impotente e cruel; se pode e quer, o que é a única resposta satisfatória para esta pergunta, então por que Deus não o destrói?” Tomás de Aquino afirmou que o mal não tem uma existência real, que é sem substância, como a escuridão e a cegueira. Estes são apenas uma privação da luz ou da visão. De que é feia a escuridão? De nada, absolutamente. Também o mal é da mesma natureza, é apenas uma negação da bondade, uma ausência de bem. O filósofo alemão Leibniz seguiu o pensamento de Tomás de Aquino.

Sendo assim, se existe mesmo o tal Satã, ele foi criado por Deus e este não poderia produzir um efeito mal, pois tudo que dele provém é bom em si mesmo. Satã só poderia se tornar O Mal se separado totalmente de Deus e do bem. Mas mesmo que tudo que ele fizesse fosse destituído de bondade, ele ainda seria bom, pois foi criado por um Deus todo-bondoso. Admitir que Satã tem uma parcela de bondade é uma heresia em religião, mas totalmente plausível se fôssemos nos basear pela razão. Sendo assim, não pode existir um mal absoluto. Mas mesmo que o tal anjo caído tivesse se distanciado completamente de Deus isso não melhoraria a situação do Altíssimo. Este, sendo onisciente, saberia desde toda a eternidade o que aconteceria se criasse Satã, saberia que ele iria se distanciar Dele e que iria se emprenhar em afastar a humanidade do criador – com êxito, ao que parece. Desta forma, como poderia Deus permitir estas coisas? De fato, ele não poderia interferir no livre-arbítrio dos anjos, mas poderia não criá-lo se soubesse o tamanho da catástrofe que isso iria causar. Também não há como mudar o que aconteceu, pois o que aconteceu já era conhecido por Deus desde a eternidade. Isso não condiz com a existência de um Deus absolutamente inteligente, poderoso e bom. Se existe Satã é porque Deus quis que ele existisse, Deus quis que ele tentasse Adão e Eva no Paraíso, Deus quis que ele desviasse seus filhos do caminho da retidão, pois poderia ter evitado tudo isso e não o fez.

Guaita ilustra melhor este pensamento no seu livro “O Templo de Satã". Ele nos joga o seguinte dilema: "Espantamo-nos que os teólogos agnósticos, que favorece tão lúgubre inépcia, mostrem-se infelizes e indignados se um amigo de lógica inflexível encosta-o à parede e lança à queima-roupa o capitoso dilema: Deus, o senhor diz, é todo-poderoso, onisciente, infinitamente misericordioso e bom. Diz por outro lado que a grande maioria dos homens está votada ao inferno... é preciso ser coerente mesmo em teologia. Então Deus quis o mal e o inferno. É em vão que se objeta a inviolabilidade do livre-arbítrio, pois o mau uso feito pelo homem se não foi previsto por Deus, sua onisciência falhou; se foi previsto e não pôde ser impedido, nego seu todo-poder; se previu e podendo evitar não o fez, contesto sua toda - bondade."

Mesmo que a Bíblia afirmasse a categoricamente a existência de Satã – o que ela não faz, uma análise dos nos mostraria que isso é impossível. Não há como um ser que foi criado bom e puro se tornar totalmente seu oposto. Se o mal não é uma coisa real e Satã é puramente mal, então ele não existe. Mas se o mal é uma coisa real, quem o criou? O Deus todo-bondoso judaico-cristão? Embora trechos da Bíblia afirmem que sim, como em Isaías 45, 7, isso parece ser contra o senso-comum daquilo que chamamos cristianismo. Melhor seria ignorar este trecho e dizer que o mal foi criado pelo anjo caído. Mas se ele tivesse criado o mal, ele seria um Criador, assim como Deus, sendo assim elevado à categoria de um deus. O Demônio, Diabo e Satanás nada mais é que uma historinha criada pela igreja para manipular as pessoas pelo medo, para melhor manipulá-las ou para que elas pudessem melhor exercer seus deveres éticos por simples medo do castigo, mas, como bem disse Bertrand Russel, “uma virtude que tem suas raízes no medo não é muito digna de ser admirada”.

REFERÊNCIAS:

REVISTA SUPER INTERESSNTE; Edição 174; março de 2002; editora Abril.
SUSSOL, Max; O Catolicismo é Um Plágio?; Coleção Revelações.
GUAITA, Stanislas de; O Templo de Satã; Editora Três; Biblioteca Planeta.
ABAGNANO, Nicola; Dicionário de Filosofia; Martins Fontes.
BÍBLIA SAGRADA-EDIÇÃO PASTORAL.
TRADUÇÃO DO NOVO MUNDO DAS SAGRADAS ESCRITURAS.
BÍBLIA SAGRADA-NOVA TRADUÇÃO NA LINGUAGEM DE HOJE.
BÍBLIA SABRADA; Sociedade bíblica do Brasil.
BLOOM, Harold; Presságios do Milênio.
VOLTAIRE; Deus e os Homens.


Igor Roosevelt

Publicado no Recanto das Letras em 26/09/2008
Código do texto: T1197901

7 comentários:

  1. isto sao sutilezas da doutrina iluminista...ou seja,luciferiana sao as mesmas!

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  2. Parece que o amigo Enjo não leu texto do Igor e repete as mesmas falacias dos radicais defensores da existência do diabo, porque não conseguem e tem medo de raciocinar o suficiente e perder a tão preciosa "fé" que está intimamente baseada na existencia de um ser mal.

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  3. DEUS nao e para ser entendido!!!
    A sabedoria de DEUS e loucurars paras os homens
    se voce nao acredita em DEUS e nem o que esta no Apocalipse, entao me esplique como esta se comprindo o que ta escrito no mesmo.
    BEM AVENTURADO AQUELE QUE OUVE A PALAVRA DA PROFECIA!

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  4. O amor e a fé em DEUS é o que nos faz compreende-lo, pois é através deste sentimento tão nobre que é o amor a ELE e ao nosso irmão (próximo) que ELE se manifesta em nossos corações. Não foi em vão que ele enviou seu único filho Cristo Jesus por nós, quer prova maior de amor?

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  5. Boa tarde!
    Está muito muito bem escrito o texto, eu próprio me surpreendi com as passagens que referiu.Contudo há uma coisa que penso pode responder a tudo que referiu; livre arbítrio, liberdade de escolha. Deus deu ao Homem coisas que Ele próprio não quis ter, como liberdade de escolha. Nós fomos feitos há sua imagem e semelhança! Mas temos características que nos tornaram os ditos mortais, pecadores, Deus quer-nos ou "santos ou nada". Dá-nos a liberdade de escolher, meio termo é que não pode ser mesmo, porque aí sim não somos dignos do céu. Há muita gente que só está interessada em ser cristã quando está mal por exemplo.
    Em relação ao mal, ele revela-se de varias formas, não vou dizer mais que isto, a verdade é esta, e nós devemos saber ver onde ele está simplesmente, nunca teve forma própria, daí aparecer varias vezes de formas diferentes, até aos nossos dias. O mal do mundo é um mistério sombrio e doloroso Muito dele é incompreensível, mas de algo temos a certeza: Deus é cem por cento bom. Ele nunca pôde ter sido o autor de algo mau. Deus criou o mundo bom, embora ainda não aperfeiçoado. Com violentas faltas e penosos processos, ele (mundo) desenvolve-se até à definitiva perfeição. Pode distinguir-se aquilo a que a Igreja chama mal físico, como um deficiência congénita ou uma catástrofe natural, do mal moral, que atinge o mundo pelo abuso da liberdade. O "inferno na terra" - crianças-soldado, atentados suicidas, campos de concentração... - é geralmente operado por seres humanos. A pergunta decisiva não é, portanto, «Como se pode crer num Deus bom, se há tanto mal?», mas «Como poderia o ser humano, com coração e inteligência, suportar a vida neste mundo se não existisse Deus?» A morte e a ressurreição de Cristo mostram que o mal não tem a primeira nem a última palavra: do pior dos males Deus fez surgir o bem absoluto. Nós cremos que Deus, no Juízo Final, acabará com toda a injustiça.
    Na vida do mundo vindouro, o mal não terá mais lugar e o sofrimento acabará. (YOUCAT, 51). Digo mais, Jesus ao dar a vida por nós quando crucificado, também diz "Meu Deus, Meu Deus porque me abandonaste?" (MT 27,46. Jesus quis ser homem comum, daí nunca se afirmar 100% bom e intitulando se filho de Deus; ou seja ele admite que NÃO É DEUS encarnado mesmo sendo-o! E se pensar na altura era facil dizer que era Deus bastava fazer algo minimamente credivel que todos iam atras Dele, mas não foi assim que se passou. Ele na passagem de Lucas que referiu mostra o que mostrou em tantas outras passagens, HUMILDADE, coisa que faltava na altura e ainda hoje falta no mundo, e cada vez mais! Outra coisa, Deus e Jesus mais tarde sabiam que iria ser crucificado, e veja Deus deixou que tudo isso se passasse! Porque supostamente ressuscitaria não é, presumo que pense isso? Eu digo-lhe não não foi por isso. Foi porque nos quis mostrar do que Ele, Deus é capaz de fazer por todos nós! O Seu filho sofreu por nós. Deus foi capaz disso.
    Tal como referiu e bem, as batalhas dão se na terra, os males estão na terra, e nós causamos há custa do livre arbitrio, abusando da liberdade que temos. Deus não devia tê-la dado não é o que pensa? Nós temos de merecer o Céu! Porque quando lá estivemos, falhamos, e continuamos a falhar. Hoje em dia existem religiões por todo lado, existem os ateus e os que adoram o diabo, e outros. Deus permitiu isso, dando-nos tudo mas tudo para fazermos o que acharmos melhor MAS dando-nos também o seu ensinamento. Por ultimo veja que a biblia saiu com tudo o que eu disse e tudo que você escreveu. O livro biblia está nas nossas mãos! E você fez a sua leitura e eu fiz a minha, baseada nos meus conhecimento e você nos seus. aqui está a prova do que lhe disse, livre arbitrio dado por Deus. E mais se a igreja quisesse realmente enganar-nos bastava mudar os textos e apagar as passagens que referiu, mas não o fez.

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  6. anderson willian dabtas pinheiro24 de maio de 2012 07:51

    a letra por si só ,mata mas o espirito vivica ! a biblia tem uma linguagem muito complicada de se entender. por isso toda vez que fomos ler devemos pedir revelacao pra Deus . por causa disso que existem muitas contradições por ai ,pq as pessoas leem e explicam da maneira que elas entenderam . mas somente aquele que esta cheio do espirito .ou seja que vive uma vida de comunhao com Deus , podera ter revelacao correta da palavra ! entao nao queira influencia pessoas com oque voce acha que e certo . pq se Deus nos deu o livre arbitio quem e voce pra tenta influencia alguem ? os demonios existem sim, e eles odeiam há Deus e tentam destruir tudo oque Deus fez inclusive a maior criacao de Deus que somos nois os seres humanos ! eles odeiam tambem os seres humanos porque sao a
    imagem e semelhança de Deus. e eles tentam de todas as maneiras , pondo vicios , amores flustados , dividas , brigas conjugais . até nos fazem pensar que Deus nao existe , e colocam idolos para darmos louvores ! se voce esta tentando fazer com que as pessoas nao acreditem em demonios e ta tentando por duvidas na cabeça das pessoas sobre as coisas de Deus . voce acha que esta fazendo avontade de quem ? pare pra pensa...

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  7. Tolos Cristãos Nunca Aprendem A Reconhecer A verdade! De Que Tudo O Que Eles Seguem Foi Moldado Por Humanos Muito Tempo Atras Principalmente Na Época do Império Romano e Devido Ter Havido Um Grande Sincretismo Religioso. O Único Meio de Acabar Com Essa Grande Mentira da Humanidade É Votar Uma Lei No Congresso Para Que Nas Escolas Os Jovens de Futuras Gerações Comecem A Serem Esclarecidos Sobre As Origens Dessas Histórias Assim Como Já Estão Pretendendo Fazer Em Países de 1º Mundo. Pois Assim Como Nada Disso Era Aceito Antes e Quem Seguia Essas Idéias Era Perseguido e Até Mesmo Condenado A morte Pelo Governo da Época e Depois Houve Uma Grande Reviravolta, Uma Serie De Podres Imperadores Romanos Que Nada Tinham de Bom Exemplo Como Santos, Começaram A Abraçar Essa Que Vinha Sendo A Nova Onda Religiosa na Época Apenas Por Interesse Próprio, Porque Viram Nisso Uma Nova Forma de Conter As Massas e Devem Ter Pensado "Vamos Dar O Que Querem, Assim Seremos Vistos Como Seus Heróis e Poderemos Continuar no Poder e Com As Massas Idiotas Sob Nossos Pés" Então Com A Mais Nova Seita Judaica No Poder Com O Status de Única e Verdadeira Religião do Império, Começaram Passar Para As Gerações Sucessoras Que Tudo Que Meros Camponeses Disseram Sobre Um Homem, Que Foi Esmagado Pelo Império, e Seu Deus (Que Não Parece Ser O Mesmo Deus de Israel),Era Tudo Verdade. Mas Quem Estuda e Pesquisa Sobre Essas Histórias Sabe Que Esse Não Foi O Único Fator Para Expansão do Cristianismo Pelo Ocidente, Houveram Outros, Com Inclusive Muito Derramamento de Sangue Por Quem Se Dizia de Uma Religião de Paz (Grandes Hipócritas) Para Justificar A Luta Contra Os Que Não Queriam Se Submeter e Portanto, Eram da Parte do Diabo!. Engraçado Sempre Odiaram Os Judeus Por Não Terem Aceitado Jesus Por Ele Não Ser O Líder Militar Que Esperavam, e Algum Tempo Depois Fizeram Simplesmente O Que Jesus Nunca Fez e Nem Se Propôs A Fazer (Guerra [Para Impor Suas Idéias]). Eu Poderia Escrever Linhas e Linhas Sobre Isso Mas Não Vou, Fica Apenas Resumido No Que Já Escrevi, Esclarecendo Os Mais Jovens Nas Escolas Se Não Acabarmos Com O Monopólio Dessa Pseudo Verdade Diminuiremos Muito Sua Influencia Na Formação de Falsos Caráteres, E Nem Quero Que Acabem Com O Ensino Religioso, Quero Apenas Que Mostrem O Outro Lado da Moeda, Afinal Dizem Por Aí Que O Brasil É Um Pais Democrático de Direito Não É Mesmo?! E Não Seria Interessante Censurar Uma Religião Que Si Afirma Como Verdade Absoluta Por Mais Pernicioso Que Seja Pois A Cura Para Um Argumento Falacioso Não É A Supressão de Suas Idéias Mais Sim Mostrar Um Argumento Melhor!.

    "Nós Também Sabemos O Quanto A Verdade É Muitas Vezes Cruel, E Nos Perguntamos Se A Ilusão Não É Mais Consoladora." Henri Poincaré (1854-1912)

    "Conheceis A Verdade e a Verdade Vos Libertará" Jo.8:32

    A Verdadeira Verdade Talvez Esteja Muito Longe de Se Conhecer, Mas Conheces Primeiramente A Mentira e Aí Sim Podes Pensar Em Começar A Seres Livre! Benenki

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